
A menina na varanda de metal falava sozinha. Falava e sorria, as vezes. Usava uma blusa vermelha, vermelho fechado. Ela sentava toda noite depois que todas as janelas ao lado se apagavam e dormiam.
Sentada ela olhava pra frente, depois pros lados. Eu só conseguia ver do busto pra cima. A camisa de hoje era vermelha e tinha algo escrito. Como outro dia qualquer ela sentou-se no parapeito com uma perna dentro de sua morada e a outra ao vento. Começou a falar. Dessa vez não havia sorrisos, havia feição de fúria, de discussão. Parou de fazer qualquer tipo de gesto com a boca, era impossível saber o que ela dizia. De repente ela saiu da sacada, voltou em alguns minutos com um holograma de achocolatado tri-destilado. Pingou algumas gotas em sua perna e tomou o resto.
Inicou novo diálogo com o vento, dessa vez triste. Passou a mão entre as pernas, viu sangue. Uma luz piscou em seus olhos, parecia ter um padrão. Tentei anotar o tempo em que acendia e apagava, mas não havia como no momento.
Depois de alguns minutos todo o sangue entre suas pernas foi em forma de pontos em direção a luz.
Acho que vieram buscar o que era deles.